Na última vez que tinham se visto, um tentava bater com um estandarte na cabeça do outro, que se defendia tentando acertar um soco no estômago do outro. Um gritava ''Comunista!'' e o outro gritava ''Fascista!''. Mas isso fora há anos. Agora estavam ali, anos mais velhos, no mesmo boteco. Tinham se cumprimentado discretamente. Contrangidos. Depois de alguns minutos de hesitação, um convidara o outro para sentar à sua mesa. Que diabo, fazia tanto tempo.
A briga fora na época em que os dois eram estudantes. Amigos, mas com idéias diferentes. Tempos agitados. Um dia tinham se encontrado num choque de manifestações opostas. Contra e a favor de alguma coisa. Os dois eram jovens e impulsivos. Tinham se xingado. Depois um partira para cima do outro com seu estandarte. Outros tempos. Outros hormônios. Nunca mais tinham se falado.
- Você ainda é daquele troço?
- Troço?
- Sei lá como se chamava. Cristãos Castrados contra qualquer coisa.
- Cruzada Cristã contra o Comunismo. Não.
- Ainda existe?
- Não sei. Você?
- O quê?
- Ainda é comunista?
- Rá!
Era uma resposta. O outro perguntou:
- Ainda existe?
- Comunista? Parece que uns dois ou três. Mas a polícia já tem o endereço deles.
- Você chegou a ser militante?
- Olha a marca aqui. Cassetete.
- Não fui eu?
- Você não me acertou com aquele estandarte ridículo. Cruzada Cristã... Só você mesmo.
- E você, com toda aquela conversa de fanático? Marx, Trotski, Gorki.
- Gorki? Que Gorki?
- Sei lá. Aquela ladainha.
- Não, ladainha é com você. Fanático é você. Fanático religioso.
- Era.
- Você deixou a Igreja?
- Há muito tempo. Fui me desencantando. Ficando cheio de dúvidas. Acabei perdendo a fé.
- Parecido com o que aconteceu comigo. As poucas certezas que eu ainda tinha desapareceram com essa história toda lá no Leste Europeu. E Rússia. Não dá para acreditar em mais nada...
- Melhor assim. Somos pessoas maduras. Racionais. Recuperar a razão é uma das compensações da idade.
- Quais são as outras?
- Ainda não descobri.
Quando viram, estavam brindando à amizade recuperada e trocando informações sobre as famílias e descobrindo que seu encontro naquele boteco não fora um acaso completo. Estavam os dois fazendo hora para assistir à palestra de Rangar Krisnamon na sua primeira visita ao Brasil. Os dois eram discípulos de Rangar Krisnamon! Ambos tinham lido O Olho interior e Minhas Vidas, ambos tinham o Amuleto Regenerador. Tiraram do bolso o pequeno estojo com um fio da barba de Krisnamon e o fizeram rodar na ponta da correntinha sobre seus copos, entoando a Encantação Milenar:
- Oam, patapai.
- Oam, patapai.
Depois um olhou o relógio e sugeriu que era melhor se dirigirem para o auditório, que já devisa estar enchendo, pois ambos sonhavam em chegar perto de Krisnamon e, se possível, tocar os seus pés. Pois diziam que quem tocasse os pés de Krisnamon se encheria da Verdade Única, seria como um cântaro da Verdade Única, e os dois saíram do boteco abraçados.
Luis Fernando Verissimo
***
Homenagem singela do blog ao Dia do Amigo. E não percam amanhã um top 10 especial sobre amigos ilustres.
Comenta aí, pô!
ahhhhhhhhh....
ResponderExcluirque deliciante é ler alguma coisa do Vero (pros íntimos!). Desce como uma cerveja gelada num dia esturricante de goiania véia! diferentemente de Mainardi que mais parece com aquela venenosa krill quente a bordo do monster bus!!
p.s.: rapá essa contenda tá até parecendo uma contenda entre amigos numa república de goianos em sampa!
p.s.2: PM NA USP NUNCA MAIS!!! FORA FAXISTAS!!
Put que pariu...
ResponderExcluirquem deixou o Djavam postar nessa porra???
kkkkkkkkkkk
hehehehe,
ResponderExcluirpalma palma não criemos cânico!
kkkkkkkkkk
ResponderExcluirDemocracia meu povo,democracia....